GREVE GERAL: A POSIÇÃO DO PCTP/MRPP


I
Cerca de três milhões de trabalhadores portugueses estiveram durante todo o dia de
ontem, 24 de Novembro de 2011, directa ou indirectamente empenhados, em todo o país,
num dos mais encarniçados combates travados, nas últimas três décadas, contra a
exploração capitalista e contra um dos seus mais reaccionários governos de sempre: o
governo de traição nacional do PSD/CDS, beneficiário do apoio silencioso e oportunista do PS de José
Seguro.
Neste combate, os operários e demais trabalhadores portugueses obtiveram uma
vitória importante e impuseram à burguesia capitalista, ao seu governo de traição
nacional e à Tróica germano-imperialista uma primeira derrota significativa.
A greve geral de 24 de Novembro de 2011 conferiu ao povo trabalhador português
uma legitimidade sociológica revolucionária que destruiu a pretendida legitimidade
eleitoral do governo Coelho/Portas e da política de terror e de latrocínio que tem vindo a
aplicar contra o povo.
Tal é o balanço político genérico que é justo fazer da greve geral nacional de 24 de
Novembro de 2011.
II
Como se sabe, a greve geral nacional de ontem, tal como a greve geral de Novembro
de 2010, foi convocada pelas duas centrais sindicais, pela linha sindical Luta-Unidade-Vitória,
pela esmagadora maioria dos sindicatos e organizações sindicais portuguesas e pelos
partidos políticos que se reclamam da esquerda, sempre com o silêncio atroador do
Partido Socialista de Sócrates, no ano passado, e de Seguro, este ano.
Gozou também a greve geral nacional de ontem do apoio de novas plataformas
políticas em formação, tais como o Movimento de 12 de Março e o Movimento dos
Indignados.
Todas estas forças políticas e sindicais compartilham com os três milhões de
trabalhadores portugueses a vitória que estes obtiveram e regozijam-se com a derrota
desferida sobre os inimigos de classe.
III
Cumprirá, todavia, salientar aqueles que são os aspectos mais significativos da
vitória de ontem, o primeiro dos quais é a enorme progressão do número de operários e
trabalhadores envolvidos nesta greve, por comparação com o número que esteve
envolvido na greve anterior, ainda que se não disponha de números exactos sobre a
matéria e se deva responsabilizar por essa falta a má organização dos nossos sindicatos.
De qualquer modo, a vitória política mais retumbante foi conquistada pelos
operários e trabalhadores do sector público dos transportes, que obtiveram em quase
todo o país, com excepção das regiões autónomas, uma paralisação muito próxima dos
cem por cento, mesmo tendo em conta os golpes ilegítimos do tribunal arbitral sobre a
determinação dos serviços mínimos.
Esta importantíssima vitória liquidou completamente o reaccionário projecto governamental
de reestruturação do sector, mas nem por isso devem os trabalhadores afrouxar
na organização e intensificação da sua luta, sendo certo que têm agora melhores
condições para vencer o inimigo e derrotar os seus planos do que tinham na semana
passada.
Outra vitória importantíssima da greve geral, por comparação com a greve de 2010,
está em que a classe operária e outros trabalhadores dos sectores produtivos privados
levaram também a greve a esses sectores, nomeadamente nos distritos de Lisboa, Setúbal
e Leiria, com a organização de piquetes de greve nas fábricas, o que há muito tempo se não via.
Os professores e, sobretudo, os alunos do ensino superior obtiveram um sucesso
grevista absolutamente inesperado nas principais universidades do país (Minho, Porto,
Coimbra e Lisboa), e os jovens ficaram assim disponíveis para apoiarem com vivacidade e
coragem as concentrações e desfiles dos trabalhadores grevistas.
Finalmente, e para ficarmos pelos sucessos mais importantes, a participação maciça
de desempregados e reformados nas manifestações representam o apoio de forças que,
pela própria natureza das coisas, costumam andar arredias dos locais da greve, mas que
ontem marcaram uma presença pujante nas ruas e nos piquetes de greve das suas antigas fábricas.
Piquetes de greve que estiveram mais bem organizados do que na greve anterior e
com sucesso absoluto nos casos dos controladores aéreos, do Metropolitano de Lisboa,
dos trabalhadores portuários de Lisboa, Leixões e Matosinhos, entre outros, e que em
determinadas empresas (STCP e Metro do Porto, TAP, Carris na Musgueira e em Santo
Amaro, e Vimeca) travaram duros combates contra umas quantas tentativas de furagreves,
estas protegidas e auxiliadas por provocadores da polícia.
IV
Mas houve também, na greve de ontem, erros políticos graves, que devem ser
identificados e imediatamente corrigidos, embora a correcção de alguns deles, oriundos
do oportunismo, não possa contar com facilidades.
E o maior de todos os erros está na linha política errónea das duas centrais sindicais:
CGTP e UGT.
Estas duas centrais, antes que se pusessem de acordo para convocar a greve geral,
perderam perto de um ano.
E quando, finalmente, a convocaram, por consequência de uma pressão das massas
trabalhadoras que se lhes tornou intolerável, tentaram a todo o custo afastar da greve
todo e qualquer objectivo político revolucionário, limitando as finalidades da luta a meras
medidas economicistas de baixo perfil político.
Na verdade, qual era o objectivo político da greve de ontem no intuito das centrais
sindicais? Nunca o disseram claramente, mas nunca foi com certeza, porque a isso se opuseram
sempre e veementemente, nem o derrubamento do governo de traição nacional,
nem a substituição por um governo de esquerda democrático patriótico, nem sequer
afrontar abertamente a política de terror e ladroagem da Tróica germano-imperialista.
O real objectivo da greve (político, como se vê, mas reaccionário), só ontem à tarde,
em conferência de imprensa, o declararam os secretários-gerais das duas centrais
sindicais:
“Ou o governo e o patronato acabam com o faz de conta da Concertação Social e
apresentam uma agenda concreta para negociar o aumento do investimento e do
emprego, a promoção da negociação colectiva e o combate à economia paralela e à
fraude fiscal ou então haverá muita conflitualidade laboral”!...
Mas então convoca-se uma greve geral nacional, mobilizando a luta directa ou indirecta
de três milhões de trabalhadores, apenas para acabar com o faz-de-conta da Concertação
Social, quando a Concertação Social jaz morta e enterrada, definitivamente, desde a
data da imposição do memorando da Tróica?!...
É evidente que não.
V
A greve geral de ontem demonstrou que as duas centrais sindicais não representam
já, mesmo em conjunto, o universo da massa trabalhadora portuguesa. Para além da linha
sindical Luta-Unidade-Vitória, ainda modesta nos seus efectivos, há um número cada vez
maior de sindicatos e outras estruturas sindicais independentes ou que não se revêem na
linha política e organizativa das duas centrais sindicais (Intersindical e UGT).
E, por outro lado, surgem, cada mais vigorosas, novas formas de organização política
de massas, sobretudo entre os jovens, que têm de ser levadas em conta e apoiadas, mas
que as centrais sindicais desprezam, como bem se verificou na manifestação de ontem,
em que as duas centrais arrancaram com a sua manifestação do Rossio para S. Bento,
deixando para trás, no Marquês de Pombal, a manifestação (bem maior que a das centrais
sindicais) das plataformas dos Indignados e do 12 de Março, e fugindo de S. Bento quando
a maior manifestação mal tinha acabado de chegar.
As centrais sindicais, e até os próprios partidos políticos tradicionais, têm de
entender as razões do aparecimento destas novas plataformas de unidade e de luta
políticas, sendo certo que o maior disparate que podem fazer é menosprezá-las e
hostilizá-las, como aconteceu no dia da greve geral de 24 de Novembro de 2011.
Em futuras greves gerais – e é preciso começar desde já a preparar a próxima! – terá
de constituir-se uma direcção nacional da greve, onde todas as estruturas sindicais e
outros movimentos grevistas estejam devidamente representados, para que se possam
tomar decisões democráticas em conjunto.
Sem uma estrutura política de direcção desta natureza não haverá nunca em
Portugal, nas condições actuais de organização política e sindical das massas
trabalhadoras, uma verdadeira greve geral nacional.
VI
Uma greve geral nacional não é, como parece pensarem Carvalho da Silva e João
Proença, um convite para jantar.
Uma greve geral nacional é uma jornada de luta e de combate – como, em parte, foi
a jornada de ontem – mas que deve estar preparada e organizada, nomeadamente com
piquetes de greve dotados de instruções muito claras e precisas, para imporem, mesmo
pela força, sempre que necessário, a legalidade da própria greve, tal como os
trabalhadores a decidiram e entenderam nos plenários democráticos em que a discutiram
e a convocaram.
Com greves de baixo perfil político e de baixa combatividade como, ao arrepio dos
próprios sentimentos e das próprias ideias expressas pela esmagadora maioria dos trabalhadores,
pretendem as duas centrais sindicais, apenas interessadas, como se verificou já,
em reactivar a Concertação Social, não é possível impor uma derrota política duradoura à
Tróica e ao seu governo em Portugal.
É precisamente por causa destes erros políticos e de organização, que têm sistematicamente
caracterizado a linha geral das duas centrais sindicais, que a greve de ontem,
muito embora mais vasta, mais abrangente, mais ampla, mais combativa do que a greve
do ano passado, não pode ainda, em boa verdade, caracterizar-se como uma greve geral
nacional.
Em primeiro lugar, porque não abrangeu ainda a generalidade (o que não é o mesmo
que totalidade) das grandes empresas e fábricas do sector privado e, em segundo lugar,
porque ainda não alcançou, desta vez também, importantes zonas do território português,
como foi o caso das regiões autónomas dos Açores e da Madeira e do interior da parte
continental do país, inclusive, a fraca participação no Alentejo.
Tudo isto demonstra que, por si sós, as duas centrais sindicais são incapazes de
mobilizarem o país para uma greve geral nacional.
As centrais sindicais são necessárias para esse efeito, mas são manifestamente insuficientes.
Este assunto deve ser amplamente debatido entre os trabalhadores portugueses, em
espírito de unidade e com total liberdade de expressão, se se quer, como efectivamente se
pretende, o reforço da linha política, organizativa e de massas do movimento operário em Portugal.
VII
A luta continua! E continua porque, apesar da importante vitória de ontem, os trabalhadores
e o povo português não alcançaram ainda os seus objectivos principais: derrubar
o governo da Tróica germano-imperialista em Portugal e liquidar a sua política de terror e
de latrocínio dos portugueses.
O ano de 2012 será um ano de múltiplos combates, cada vez mais duros e mais encarniçados.
Não podemos vencer o inimigo se, como cumpre, não começarmos desde já por
fazer em todos os sindicatos e nos locais de trabalho, em espírito de unidade e de
discussão democrática, um balanço sério e aprofundado da greve de ontem.
Corrigidos os erros e reforçada a unidade na luta, os operários, os trabalhadores em
geral, os jovens, os reformados, os funcionários públicos, os professores, os estudantes,
em suma, o povo português vencerá!
Lisboa, 25.11.2011


O Comité Central do PCTP/MRPP

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publicado por António Veríssimo às 09:53 link do post | comentar | favorito