O MEDO DE VIVER

A nossa sociedade está dominada pelo medo. Como diz Joaquín EStefanía em "A Economia do Medo", "hoje não se trata somente dos temores tradicionais da morte, do inferno, da doença, da velhice, do terrorismo, da guerra, da fome, das radiações nucleares, dos desastres naturais, das catástrofes ambientais, mas também do medo de um novo poder denominado de ditadura dos mercados, que tende a reduzir os benefícios sociais e as conquistas da cidadania do último meio século". A ditadura dos mercados, entidade sem rosto, reduz-nos, via media, ao medo e à impotência. Todos lhe prestam vassalagem, mesmo que aparentemente a critiquem, desde os governantes europeus e nacionais aos politiqueiros da oposição moderada. E o medo impõe-se por todo o lado, "o medo é uma emoção que imobiliza, que neutraliza, que não permite actuar nem tomar decisões com naturalidade", ainda Estefanía: "os que exercem o poder submetem os medrosos e injectam-lhes a passividade e a privatização das suas vidas quotidianas, levando-os a refugiarem-se no lar". Daí que tenhamos uma sociedade ao estilo da do "Big Brother" de George Orwell onde todos desconfiam de todos, onde o companheirismo, a espontaneidade, o comunicar com o desconhecido começam a rarear. Todos se fecham na sua concha. É a sociedade-espectáculo de Guy Debord onde nos limitamos a ser espectadores de um filme que não controlamos, onde mulheres de sonho se passeiam pelos ecrãs sem que as possamos tocar. É a sociedade da compra e venda em que por detrás de uma aparencia de alguma afabilidade se escondem os monstros da ganância, da rapina, da contabilidade, do economês, do medo: do medo de ficar desempregado, do medo dos jovens não arranjarem trabalho por muito que estudem, do medo de empobrecer, do medo de gastar o que temos porque aparentemente nem sequer é nosso. Segundo Joaquín Estefanía, "para nossa desgraça isto cada dia se parece mais com a Grande Depressão. Nunca antes tão poucos deveram tanto dinheiro a tantos". Eis no que deu o capitalismo, eis no que deu a ditadura dos mercados: no medo de viver, no medo de existir. É absolutamente trágico.

 

ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO

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publicado por António Veríssimo às 15:02 link do post | comentar | favorito